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Mariana de Castro Moreira2
Chego à
Rodoviária Novo Rio às 20 horas de terça-feira. Venho de Teresópolis,
mais especificamente Canoas, pequeno lugarejo na zona rural de
Teresópolis, distante cerca de 90 km do Rio de Janeiro. Estive lá
durante todo o dia, trabalhando junto à comunidade local. Entrevistei
mães, conversei com crianças e adolescentes.
Há oito anos venho trabalhando nesta ONG - o Espaço Compartilharte
- que se propõe a atuar na comunidade, transformando vidas
caracterizadas por inúmeras situações de "risco social": famílias
desestruturadas, alto índice de analfabetismo, gravidez prematura e
freqüentes abortos, violência doméstica, desnutrição, desemprego e
subempregos.
Nesta terça-feira, estive lá buscando ouvir as histórias das vidas
daquelas pessoas, sistematizando um trabalho com as mulheres da
comunidade.
Chego ao Rio cansada mas feliz. Mil idéias para continuar esse trabalho
de pequenas transformações sociais. Pego um ônibus na rodoviária e logo
de saída, sou assaltada por dois garotos de não mais que dezoito anos.
Levaram-me dinheiro. O motorista pára o ônibus e pergunta se queremos -
eu e um senhor bastante idoso - prestar queixa na delegacia. Eu digo que
sim. O senhor diz que não e pede para descer do ônibus. Logo depois, eu
digo que não. "Não adianta...", digo.
O dinheiro roubado é o que menos importa naquele momento. Sinto-me
violentada. Mil cenas passam pela minha cabeça. As histórias daquelas
mulheres da "roça" de Teresópolis; as dores daquelas crianças; os
desejos daqueles adolescentes que há pouco me contavam suas histórias. O
que fica muito forte para mim, ao lembrar daquelas cenas, é o meu desejo
de mudar aquela realidade...
Lembro-me, em seguida, da Universidade, mais especificamente de meu
trabalho no mestrado em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia
Social. Minha dissertação se chama "Tecendo redes de saberes e práticas:
a Psicologia social na contemporaneidade". Igualmente fica forte o meu
desejo por acompanhar a gênese de saberes e práticas "psi" num mundo em
transformação.
Desculpem-me contar essa pequena experiência pessoal num artigo
acadêmico. É possível que se pergunte o que tem a ver toda essa história
de um assalto numa "produção científica" de pesquisadores em ciências
humanas. Tudo. Acho que a Academia deveria também ser o lugar para
falarmos e pensarmos essas pequenas violências a que nos submetemos
todos os dias. É com esta cena que gostaria de começar a falar de meu
trabalho no mestrado.
Tenho como ponto de partida pensar o momento atual caracterizado por
profundas crises, rupturas e transformações. Lanço mão da imagem de uma
rede de transformações por optar em pensar a contemporaneidade de forma
complexa, onde há um "emaranhado de ações, de interações, de
retroações"i. Não acredito na possibilidade de detectar
um aspecto principal que detonaria as transformações por que passamos.
Levanto entretanto, três instâncias principais de análise: as
transformações socioculturais, as transformações subjetivas e as
transformações das práticas científicas. Esta pequena cena relatada
anteriormente ilustra todas estas transformações. Uma rede complexa. Um
assalto. Dois jovens. Uma jovem (eu). Um senhor. Violência, agressão,
raiva, medo, denunciar ou não? Descrença na justiça, na polícia, nos
órgãos competentes. Jovens, mais jovens que eu. Eu indo para casa após
um dia de trabalho. Eles provavelmente começando uma noite de assaltos.
Meu dia seguinte: na Academia, junto aos pesquisadores das
'humanidades'. O dia seguinte deles... não sabemos.
Minha questão principal de pesquisa no mestrado é pensar como as
transformações contemporâneas afetam os profissionais das ciências
humanas e sociais, e mais especificamente os profissionais da psicologia.
Não somente Mariana, assaltada mais uma vez como tantos outros relatos
que nos acostumamos a ouvir e contar todos os dias. O que venho propor
aqui é pensarmos o que nós, profissionais das 'humanidades', temos a ver
com estas situações. Esta cena do assalto está sendo entendida como
somente uma das muitas manifestações das transformações atuais, cabendo
perguntar como a chamada crise atual nos atinge e como continuamos a
trabalhar?
Diversos termos têm sido utilizados, com freqüência, por profissionais
de diferentes áreas, ao se referirem às suas práticas: desamparo,
paralisia, perplexidade, perda de referenciais. Na tentativa de dar
sentido a este processo atual, aponta-se a complexificação de
realidades. Tradicionais teorias parecem não mais dar conta de antigas
realidades, tornando-se inadequadas; fala-se em um descompasso de
práticas.
Estamos falando em transformações que incidem sobre saberes e práticas
profissionais. Fomos assim, pensar a chamada metamorfose da ciência
revendo brevemente o modelo científico clássico e questionando o que
este momento de transformação das práticas científicas vem apontar.
Percebemos que a chamada ciência moderna ou clássica eliminou os
aspectos socioculturais e subjetivos do processo de construção do
conhecimento, buscando - através da neutralidade científica - o
estabelecimento de leis gerais para um mundo a ser submetido a uma ordem
universalizante.
Num momento em que se fala de transformação da ciência, exatamente os
aspectos subjetivos e socioculturais passam a ser reconsiderados. Toda
esta discussão sobre os pressupostos epistemológicos não deve ser
entendida como um pensamento meramente abstrato, desvinculado de uma
prática, mas possibilidade de instrumentalizar-nos para melhor
compreender o processo atual.
Venho me perguntando então, sobre a relação entre práticas científicas e
aspectos socioculturais. Como o conhecimento que temos produzido vem
afetando a sociedade? E em que medida, nós profissionais das
'humanidades' nos deixamos afetar pelas atuais demandas da sociedade?
Essas perguntas apontam para que minimamente, nos questionemos quais
problemáticas viemos colocando como objetos de nosso olhar e atuação.
Enquanto profissionais das 'humanidades', temos algo a ver com estas
violências cotidianas? Onde nos colocamos frente à "miséria do mundo" -
para lembrar Bourdieu ? Em nome de que ou de quem estamos produzindo
conhecimento? Como continuar conhecendo? E o que fazemos a partir do que
conhecemos?
É neste ponto que creio inserir-se o segundo aspecto a ser considerado
no processo de construção do conhecimento: a subjetividade profissional.
Como marcou Morin , a realidade contemporânea complexificou-se a tal
ponto que não mais podemos falar numa neutralidade do pesquisador.
Como profissionais das 'humanidades' somos chamados, todo o tempo, a nos
comprometermos, fazermos escolhas, implicar-nos. A relação entre as
práticas científicas e as transformações subjetivas vêm sendo, assim,
pensadas. A subjetividade do profissional que carrega suas experiências,
crenças, valores, desejos marcando a forma pela qual vamos trabalhar
(com ) estes novos sujeitos que se colocam na contemporaneidade.
Acredito que estas nossas pequenas experiências cotidianas devam ser
trazidas para dentro da Academia. Quem sabe, desta forma, elas entrem um
pouco mais em nossos conhecimentos ou ainda, nós saiamos dos nossos
"muros acadêmicos" expandindo nossos olhares, transformando nossos
saberes e práticas de profissionais das 'humanidades'.
Dentro de minha pesquisa de mestrado, desenvolvo um trabalho de campo
onde, a partir da escuta de algumas histórias de vida de profissionais
ligados à psicologia social, busco acompanhar a gênese de saberes e
práticas neste campo.
A escolha dos entrevistados se deu tendo como critério o fato de serem
psicólogos sociais que, de alguma forma, buscaram transformar suas
práticas e saberes. Suas trajetórias profissionais refletem as próprias
transformações por que passa a psicologia social, entrelaçando - em
diferentes níveis - tramas individuais e coletivas.
"Estamos na fronteira entre disciplinas e, mais ainda, no espaço em
que elas se superpõem e onde nenhum esforço no sentido da 'descontaminação'
é inteiramente satisfatório. Pelo contrário, aceitar essa imbricação é
condição primeira para se prosseguir na pesquisa. A vida que emerge da
biografia é a vida no grupo: a grupo tem história, a história é feita de
vidas e assim fecha-se o círculo"
Estes relatos apontam um mapeamento da própria trajetória da psicologia
social contemporânea, em seus principais campos de atuação, referenciais
teóricos e metodológicos. Entretanto, a utilização das entrevistas na
linha da abordagem biográfica, nesta pesquisa, não tem por objetivo
traçar um panorama amplo e acabado deste campo, mas complementar os
dados apontados teoricamente, possibilitando o surgimento de novos
elementos de análise.
Pensar a contemporaneidade a partir de uma rede de transformações
leva-nos, de alguma forma, ao questionamento dos próprios referenciais
que viemos adotando. Os relatos de trajetórias profissionais na
psicologia social possibilitam que se retorne a alguns importantes
pressupostos epistemológicos que sustentam ou sustentaram o campo "psi";
indicando igualmente, aspectos negligenciados por uma psicologia social
clássica e aqueles retomados por novas formas de fazer e pensar a
psicologia social atualmente.
1 Este artigo é baseado na pesquisa de mestrado da autora
intitulada "Tecendo redes de saberes e práticas: a Psicologia Social na
Contemporaneidade".
2 Psicóloga. Mestre em Psicossociologia de Comunidades e
Ecologia Social/UFRJ. Coordenadora Técnica da ONG Espaço Compartilharte.
Notas:
MORIN, Edgar. Epistemologia da complexidade In SCHNITMAN, Dora (org.)
Novos paradigmas, cultura e subjetividade, Porto Alegre: Artes Médicas,
1996, p. 274.
BOURDIEU, Pierre. La misère du monde, Paris: Ed. Seuil, 1993.
MORIN, Edgar. Ciência com consciência, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,
1996.
PREUSS, Miriam. A abordagem biográfica - História de Vida - na pesquisa
psicossociológica In Série Documenta, n. 8, Rio de Janeiro: EICOS/UFRJ,
1997
fonte:
http://arquivo.portaldovoluntario.org.br/sala/artigos/37.asp
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