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O ETHOS QUE PROCURA
Foi obra da razão crítica, articulada pelos
geniais filósofos Platão e Aristóteles, operar o salto do "daimon" (a
percepção ética de base) para o "ethos"(sistema racional de
princípios).Com isso começou uma grande aventura intelectual sob cuja
vigência ainda estamos, embora em seu ocaso. Com a distância de mais de
dois milênios, podemos tentar uma leitura de cego, captar as
relevâncias, e identificar o perfil básico do ethos de nossa
civilização.
A ética seguiu o destino da razão. A natureza da razão é procurar e o
ethos será um ethos que procura. A razão não se detém diante de nenhuma
instância. Por isso ela é, essencialmente, dessacralizadora. Sua
expressão acabada se realizou na razão instrumental-analítica cujo
produto maior é a tecno-ciência com a civilização que criou, hoje
mundializada. Ela tem imenso alcance mas também limites.
Em primeiro lugar, esqueceu o Ser (o todo)e se concentrou no ente
(parte), considerando-o a "realidade" para além da qual nada mais
existe. O reflexo para a ética foi que não se atendeu mais à "voz
interior"(degradada a super-ego psicológico, a interesse de classe) para
só ouvir a voz de fora, internalizada,da norma e da ordem.
Em segundo lugar, sendo ilimitados os entes, ilimitados são também os
saberes, esquecidos de que são partes de um Todo. Realidade fragmentada,
gerou saber fragmentado e ética fragmentada em infindas morais, para
cada profissão (deotologia), para cada classe e para cada cultura.
Em terceiro lugar, separou o que na realidade sempre vem junto:Deus e
mundo, razão e emoção, masculino e feminino, justo e legal, privado e
público. A ética foi dividida em pública e privada, das intenções e dos
princípios, dos meios e dos fins.
Em quarto lugar, o saber foi posto a serviço do poder e o poder usado
como dominação. A ética se fez instrumento de normatização do indivíduo,
forçado a introjetar as leis para inserir-se na dinâmica do processo
social, leis pelas quais é fiscalizado ou até punido. A sociedade se
funda menos na ética e na lei do que na legalização das várias práticas
pessoais e sociais aceitas socialmente.
Em quinto lugar, fundada somente na razão crítica, a ética não conseguiu
consensos mínimos, assumíveis por todos.Os imperativos categóricos como
os de Kant permaneceram abstratos:"trate o ser humano sempre como fim,
jamais como meio" e "aja de tal maneira que a máxima de sua ação possa
valer como norma para todos". São princípios da razão ilustrada, não da
comum, das maiorias.
Em sexto lugar, fechada apenas ao âmbito da razão, a ética perdeu o
horizonte da transcendência que vem do espírito e de sua obra que é a
espiritualidade,aquela dimensão da consciência que permite ao ser humano
sentir-se parte do Todo e abrir-se a Ele. Sem espiritualidade a ética
vira facilmente moralismo e a lei, legalismo.
Em sétimo lugar, a ética perdeu o coração e o "pathos", a capacidade de
sentir em profundidade o outro. Ela é solipsista, centrada em si mesma.
A ética surge e se renova quando o outro emerge, com quem convivo. Ela
não apresenta instrumentos internos que nos permitem dar respostas aos
graves desafios atuais que têm a ver com o futuro da vida e da
humanidade. Precisamos de um ethos que não apenas procura, mas que
também ama e cuida.
Fonte:
www.leonardoboff.com
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