Juiz de Fora só recicla 2,95% do lixo
 

 

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fonte: Jornal Tribunas de Minas   O lixo no cotidiano
Fabiano Moreira

O lixo faz parte do cotidiano de todos os cidadãos e está associado a hábitos de consumo, alimentação e estilo de vida. Em Juiz de Fora, estima-se que, em média, cada pessoa produza 968g de resíduos por dia. Este número deixa o município acima da média nacional para cidades de médio porte, que é de 700g, e a caminho da produção de grandes centros como São Paulo, onde cada indivíduo descarta 1,6kg por dia. Do total de 440,67 toneladas diárias que a população, o comércio e a indústria deixam sob a responsabilidade do Demlurb, apenas 13 toneladas, ou 2,95%, são destinadas à Usina de Reciclagem e Compostagem. Apesar do nome, a unidade não realiza a compostagem ou decomposição do material orgânico, que hoje compõe 58,73% dos detritos. Construída para processar 160 toneladas por dia, a usina ainda mantém um ritmo tímido, operando com 8,12% de sua capacidade. O Demlurb alega que os custos são altos (R$ 282,60 a tonelada) e teriam que ser revertidos para o bolso do contribuinte.

Apesar de os números mostrarem que a reciclagem a todo vapor é um projeto para o futuro, Juiz de Fora faz parte de um seleto grupo de 150 municípios que entraram na era da coleta seletiva, segundo dados do Compromisso Empresarial para a Reciclagem (Cempre). Considerando-se que o Brasil tem 5.504 cidades, apenas 2,72% delas se preocupam com a questão ambiental. Isso no país em que 76% dos resíduos ainda são depositados a céu aberto, e 1% é destinado a usinas de reciclagem e incineração. Apenas 10% são soterrados em aterros sanitários licenciados pelos órgãos ambientais, o que ainda não é o caso do depósito da cidade nas margens da BR-040.

A coleta seletiva porta a porta abrange 50 bairros de Juiz de Fora, o que corresponde, segundo cálculos do Demlurb, a 43% dos domicílios. Há ainda 20 Postos de Coleta Voluntária (PCV) espalhados por diversas regiões, onde os cidadãos mais conscientes exercitam a separação do lixo em papel, plástico, metal e vidro.

Demlurb alega ter prejuízo

Na coleta feita pelos caminhões, a comunidade só precisa separar os resíduos em úmidos (orgânicos) e secos (todos os outros detritos). Esta separação é cada vez mais importante, por não sujar ou molhar os materiais passíveis de serem reciclados, dando oportunidade aos catadores e à Prefeitura de reaproveitá-los. O papel em contato com restos de comida ou líquidos perde o valor de mercado. Plástico, garrafas PET, vidro, embalagens longa vida e outros resíduos também valem mais quando limpos. Por isso, a dona de casa deve lavar todas as embalagens antes de jogá-las no lixo.

O Demlurb não oferece consultorias para condomínios que desejam implantar a coleta seletiva, apesar da demanda, mas está querendo atingir bares que têm grande consumo de vidro. Estes estabelecimentos devem fazer contatos pelo telefone 690-3514, para solicitar coleta especial.

O assessor do Demlurb, Alexander Gomes, diz que as usinas de reciclagem dão prejuízo às cidades brasileiras. Ele informa que, em Juiz de Fora, o déficit chega a R$ 136,80 por tonelada. São R$ 53.352 por mês. “O único ganho é ambiental. Economizamos a vida útil do depósito na BR-040.” Como 58,73% dos resíduos são orgânicos, o potencial de reciclagem é de 40%. Ele alega que a compostagem não é viável, já que o composto final tem custo baixo (R$ 0,50 a tonelada). “Demora três meses para se produzir um produto de qualidade.” Como argumento a favor da conscientização da redução da quantidade de lixo produzida, ele cita o exemplo da Alemanha, onde a coleta é cobrada de acordo com o peso dos detritos recolhidos nas residências.

Matéria orgânica compõe 60% do lixo de JF

Quase 60% do lixo de Juiz de Fora, e também do Brasil, são formados por matéria orgânica. Nas cidades norte-americanas, o índice fica entre 8% e 13%. No país, apenas 1,5% é reciclado. A principal conseqüência deste desperdício de alimentos, em um país de famintos, é a formação do chorume nos lixões e nos aterros sanitários. O chorume - líquido proveniente da decomposição da matéria orgânica - é 300 vezes mais poluente do que o esgoto doméstico. Contamina o solo e os cursos d’água, principalmente os lençóis freáticos. Seu tratamento tem alto custo.

Por isso é importante que as famílias se conscientizem sobre a necessidade de se reduzir a produção destes detritos e de separar o lixo doméstico ao menos entre úmido e seco. A melhor solução é a compostagem deste material orgânico, que pode ser feita nos quintais das casas e até em varandas de apartamentos, em vasos, minhocários ou composteiras. Assim as sobras retornam ao solo na forma de fertilizante orgânico de qualidade. Na Zona Rural, ainda há a opção de se guardar os restos para as lavagens servidas aos animais.

A educadora ambiental Rachel Zacarias, 39 anos, explica que a compostagem é um sistema simples e pode ser feito até por crianças, como o filho Luan, 7, e o amigo Tauá, 9. “Basta cavar um buraco no jardim e lançar ali o material orgânico da cozinha, intercalando com camadas de terra. Depois de três dias, basta revirar e jogar água de vez em quando. É bom colocar palhas e galhos secos por cima, para afastar ratos e insetos. No mesmo local, pode-se fazer, depois de três meses, uma horta ou jardim.” Coadores de café, papéis toalha e estercos animais também podem compor a mistura.

Ciclo da terra
A compostagem aqueceu o negócio familiar de Zulmira Goulart, 73, que tem cultura de maracujá em terreno de 300 metros quadrados no Bairro Teixeiras. Com as frutas, fabrica xaropes, geléias, casadinhos e bolos. “Aproveito os resíduos para fazer o ciclo da terra. Não vou jogar no lixo coisas que posso aproveitar. Sempre tive esta intuição.” No mesmo espaço, planta couves, outras hortaliças e feijão. “O produto natural tem paladar.” Com cones feitos de garrafas PET, protege as mudas das formigas.

O composto orgânico resultante da decomposição possui nutrientes minerais como nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio, enxofre, ferro, zinco, cobre, manganês e boro. Quanto mais a dona de casa diversificar os materiais com os quais o composto é feito, maior será a variedade de nutrientes. O fertilizante também faz aumentar o número de minhocas, insetos e microorganismos benéficos, além de neutralizar toxinas e imobilizar metais pesados, como cádmio e chumbo, diminuindo sua absorção pelas plantas. Com seu uso, o solo tem menores chances de sofrer mudanças bruscas de acidez ou alcalinidade.

Materiais como a madeira tratada com pesticidas contra cupins ou envernizada, vidro, metal, óleo, tinta, couro e plástico não servem para a prática da compostagem. O papel, apesar de se decompor, deve ser separado para a reciclagem, um fim considerado mais nobre pelos ambientalistas.

Reciclagem é atividade lucrativa

Reciclar material orgânico é negócio lucrativo para o zooctenista Afrânio Guimarães, que desenvolveu os minhocários em caixas, os “minhoboxes”. O ambiente onde as minhocas se alimentam, formado por material orgânico composto por esterco bovino, é depois transformado em húmus, que custa R$ o,50 o quilo. Ele também recicla casca de coco, transformada depois em substrato de jardinagem para melhorar retenção de água, drenagem e enraizamento. “Nas cidades do litoral, o descarte do coco é um problema ambiental.” O quilo sai a R$ 0,50.

Guimarães leva um mês para produzir 50 quilos de húmus com três caixas. Nos primeiros 25 dias, cerca de 2.500 minhocas das espécies africana e californiana alimentam-se do composto. Depois desta fase, uma nova caixa é inserida em baixo da primeira, que tem um fundo falso. Em cinco dias, as minhocas migram para a nova casa em busca de alimento. Está pronto o fertilizante. As minhocas são vendidas como matrizes para produtores, iscas vivas para pesca e alimento para peixes de aquário. Somente as detritívoras (que se alimentam de detritos) podem ser usadas neste sistema.

O minhocário é uma possibilidade para as famílias que residem em apartamentos darem destinação a parte de seus resíduos orgânicos. Guimarães comercializa uma versão “hobby” de suas caixas, que tem custo de R$ 370. Mas o Compromisso Empresarial para a Reciclagem (Cempre) indica, em cartilha sobre o tema compostagem, uma forma mais econômica de se fazer um minhocário, aproveitando materiais disponíveis.

Construa o seu
Faça furos na parte inferior de um vaso, um balde ou um caixote. Coloque uma pequena camada de matéria orgânica decomposta no fundo, que servirá de abrigo e proteção. A seguir, adicione uma “cama” feita com papel amassado e umedecido misturado com matéria orgânica parcialmente decomposta (30 dias de decomposição é suficiente). Toda semana, adicione cascas de frutas, legumes, ovos, restos de verdura, chá, pó de café, peixe, carne e frango (batidos no liquidificador).

Após colocar alimentos, proteja o minhocário com uma fina camada de terra, para não atrair moscas. Lembre-se das espécies adequadas de minhocas a serem usadas. Cem animais são suficientes para se começar uma cultura. Depois de algumas semanas, separe 10cm da superfície, onde estão os ovos e as minhocas jovens. Transfira esta parte para um novo minhocário, onde ela vai funcionar como área de refúgio. As outras minhocas devem ser também transportadas. O material que sobrar é o vermicomposto, que pode ser usado como adubo ou infusão. A infusão é preparada com cinco partes de água para uma de húmus e é usada para regar as plantas.

Aprenda a fazer compostagem em casa

Aqueles com pouco espaço e pequena produção de resíduos podem optar pelas composteiras em quintais, varandas ou garagens. Elas podem ser construídas com materiais disponíveis, devem permitir a circulação do ar e comportar volume mínimo de um metro cúbico.

A caixa, conhecida como neozelandesa, é a mais tradicional. Trata-se de um engradado sem fundo e tampa e com laterais removíveis (tábuas encaixadas). Um tamanho padrão é o de um metro na base por um metro de altura. Você pode trabalhar com uma caixa, que será montada e desmontada para continuar a compostagem, ou fazer duas ou três unidades. A passagem do material de uma composteira para outra ajuda a homogeneizar a matéria, melhorando a aeração.

Outra boa opção é o cesto telado, feito com tela de galinheiro reforçada com arame ou com tela de metal coberta com plástico.

Processo
Já a compostagem em pilhas não exige equipamento especial, sendo o processo indicado para quem possui espaço e geração de grandes volumes. É a forma mais simples e barata.

O material deve ser acumulado em pilhas, colocadas em locais sombreados para evitar o ressecamento e protegido contra a ação das chuvas. O solo deve possuir boa drenagem, para evitar acúmulo de água embaixo das pilhas, o que provoca mau cheiro e atrai animais.

Faça primeiro uma camada de material seco de 15cm a 20cm, com folhas, palhadas, troncos e galhos picados. Na segunda camada, coloque restos de verduras, grama e esterco. Volte a fazer outra camada de material seco, seguida de esterco e assim por adiante, até atingir 1,5m. O amontoado deve ser plano para evitar acúmulo de líquido.

Adicione água ao montar as camadas. No primeiro mês, revolva o composto três vezes. Verifique sempre a umidade. O composto fica pronto entre 60 e 90 dias e deve ser peneirado em malha de 10mm a 30mm de diâmetro.

Para saber se o fertilizante está no ponto, faça o teste da água: deposite uma porção do composto em um copo. Se ele colorir a água de tons escuros, tendo partículas em sustentação, sua compostagem deu certo. Se o material se depositar no fundo e não colorir a água, ainda não está pronto.

Caso você resolva fazer da compostagem um negócio, a legislação brasileira determina que o fertilizante orgânico apresente mínimo de 40% de matéria orgânica, pH mínimo de 6,0, teor de nitrogênio igual a 1% e relação carbono/nitrogênio na proporção 18/1. Lembre-se de segregar o lixo orgânico com cuidado, sem contato com lâmpadas e pilhas, por exemplo, que contaminam o material com metais pesados.

SEPARAÇÃO CLÁSSICA

Úmido Seco
Restos de cozinha, como cascas de frutas, sobras das refeições, talos e folhas de legumes, filtros de café, podas de jardins, grama, etc. Todo o restante dos detritos (metais, vidro, papel e plástico)
 
SEPARAÇÃO DE MATERIAIS REAPROVEITÁVEIS
  METAIS VIDRO PLÁSTICO PAPEL
Recicláveis Latas de aço e alumínio e sucatas da construção civil Recipientes em geral, garrafas e copos Embalagens de refrigerantes (PET), margarinas e material de limpeza, copinhos de café e água, canos e tubos, sacos plásticos em geral Caixinhas longa vida, jornais, revistas, folhas de caderno, formulários de computador, papel de fax, envelopes, fotocópias, caixas em geral, aparas de papel, rascunhos, provas e cartazes velhos
Não-recicláveis (são os detritos, que você não deve misturar aos que são passíveis de reciclagem) Clipes e grampos, esponjas de aço, canos e pilhas Espelhos, vidros planos, lâmpadas  tubos de TV, cerâmica e porcelana Cabo de panela e tomadas papel carbono, etiqueta adesiva, fita crepe, guardanapos, fotografias, bingas de cigarros, papéis sujos, papéis sanitários e metalizados
. Também são considerados rejeitos o lixo hospitalar, os resíduos dos banheiros e as fraldas descartáveis.
 
Veja em que dias o caminhão da coleta seletiva atende o seu bairro
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